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QUATRO

VEZES

MAIS

Esse é o número de vezes que o Brasil aumentou no uso de agrotóxicos nos últimos 20 anos

Dados da FAO mostram que o consumo por hectare saltou quase 300% desde 2003. Clima tropical, resistência a pragas, colapso da extensão rural e pressão do mercado explicam a curva
 

Enrico Romanelli

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Um produtor de pêssego no Rio Grande do Sul ligou para o professor Geraldo Dario pedindo socorro. A safra estava comprometida pela mariposa oriental — uma das pragas mais destrutivas da cultura —, mas o inseticida que ele havia comprado não resolvia o problema. A orientação vinha do vendedor da revenda local, que havia indicado um produto inadequado para aquele alvo específico. O produtor estava a 48 quilômetros da Embrapa de Pelotas. Ninguém tinha ido até ele. “Mandei para ele pelo celular o que precisava usar”, conta Dario, professor doutor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e diretor executivo da Campo Verde Pesquisas Agronômicas. “O cara que está do lado não faz nada para ajudar. Esse é o grande mal do nosso setor.”

A cena, banal no cotidiano do campo brasileiro, ilustra uma das causas centrais de um fenômeno que os dados mais recentes da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) tornam difícil de ignorar:

o consumo de defensivos químicos por hectar no brasil saltou de 3,18kg para 12,63kg entre 2003 e 2023

Os números são alarmantes para pesquisadores e ambientalistas, pois o uso excessivo de defensivos químicos pode prejudicar a saúde do solo, a vegetação nativa, a fauna local, a microbiota do solo e a saúde humana, direta ou indiretamente. Para grandes corporações que produzem e vendem esses produtos, no entanto, os dados animam.

Histórico da
agricultura brasileira

Nem sempre foi assim. Nas décadas de 1950 e 1960, a agricultura se desenvolvia lentamente no Brasil. Segundo dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), menos de 2% das propriedades contavam com máquinas agrícolas, enquanto a maior parte da produção se apoiava no trabalho manual.
 

O salto para a contemporaneidade veio com a modernização induzida pelo Estado: ensino agronômico expandido, pesquisa agropecuária estruturada em rede e instituições criadas para organizar a difusão tecnológica. Em 1948, surgiu a primeira experiência formal de extensão rural no Brasil, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), baseada no modelo norte-americano que combinava orientação técnica e assistência ao produtor.

Em 1956, o serviço ganhou escala nacional com a Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural (ABCAR).  

A lógica difusionista que marcou essa época, também inspirada no modelo norte-americano, apostou em “pacotes tecnológicos” que combinavam sementes melhoradas, correção do solo e adubação, mecanização e aplicação de defensivos. O Sistema Nacional de Crédito Rural, criado em 1965, deu o combustível: juros subsidiados, prazos longos e canalização de recursos para culturas de exportação em regiões com maior capacidade de investimento.
 

Em 1972, nasceu a Embrapa, para produzir e adaptar tecnologias ao ambiente tropical. Dois anos depois, a Embrater (Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural) passou a coordenar a extensão rural em escala nacional, conectando centros de pesquisa e agrônomos às propriedades por meio de empresas estaduais de assistência técnica.

Foto: Arquivo/Emater-DF 

Esse desenho institucional gerou ganhos reais de produtividade e mudou o mapa da produção. O Cerrado se tornou lavoura com cultivares adaptadas ao alumínio e à acidez do solo; sistemas de integração lavoura-pecuária começaram a surgir; a colheita mecanizada do algodão e o avanço da soja e do milho consolidaram cadeias agroindustriais competitivas. Segundo a Embrapa entre 1975 e 2017, a produção de grãos no Brasil cresceu mais de seis vezes, enquanto a área plantada apenas dobrou, um resultado direto do avanço tecnológico.

Ao mesmo tempo, surgiram críticas à “modernização conservadora” do campo: concentração fundiária, exclusão dos agricultores familiares do crédito e da assistência, e uma dependência crescente de insumos industriais que, décadas depois, se traduziria em pressão pelo uso cada vez maior de defensivos agrícolas.

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Na virada dos anos 1990, a extinção da Embrater por decreto do então presidente Fernando Collor de Mello desarticulou o serviço federal de extensão rural. Os repasses às estaduais foram reduzidos progressivamente, muitas estruturas foram sucateadas ou fundidas e a capilaridade pública encolheu drasticamente. O que levou décadas para ser construído foi desfeito em poucos anos por uma combinação de crise fiscal e decisões políticas.

Dario resume o que esse vácuo representa na prática:

Não tem aula para o produtor. Não tem assistência rural. As escolas formam ótimos agrônomos, mas falta prática e contato com o produtor. O serviço público que recebia o agricultor acabou; o produtor ficou sem referência imparcial. Tem que ouvir a orientação do vendedor, que sempre quer vender mais.”

O aumento do uso de agroquímicos

Os números mais recentes, apresentados pela FAO, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), mostram uma tendência de alta no uso de agroquímicos em várias métricas: volume comercializado, volume total aplicado, volume aplicado por área e liberação de novas moléculas. Em 2024, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) registrou a aprovação de 663 produtos, e, em 2025, esse número cresceu ainda mais, batendo 912 liberações — o maior número desde o início do levantamento, em 2000, representando alta de 37% em relação ao ano anterior.

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Em relação à aplicação de defensivos, o volume total e o volume por área apresentam um crescimento constante desde que começaram a ser registrados, em 1990.

Segundo dados da FAO, o Brasil utiliza mais de 800 mil toneladas de defensivos químicos por ano, disparado o líder do ranking, que traz os EUA em segundo lugar com praticamente metade, 429,5 mil toneladas. No caso do uso por área, o Brasil fica um pouco melhor posicionado, em 25° lugar, com 12,36 kg por hectare de terra plantada. 

O que assusta, porém, é o aumento. Ainda segundo a FAO, entre 2003 e 2023, o uso de defensivos químicos em kg/ha cresceu 297%, enquanto a área plantada cresceu apenas 3,55%. O aumento de 336,7% no volume bruto consumido no período é o que explica essa diferença. 

a evolução

uso total de agrotóxicos 

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Uso por área (kg/ha)

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Novos agrotóxicos liberados

Mas é importante contextualizar esses números. Rafael Cordioli, especialista em assuntos regulatórios da CropLife Brasil, entidade que representa empresas de insumos agrícolas, pondera que, ao considerar a área colhida em vez da área plantada, o Brasil cai para a 41ª posição no ranking mundial de uso de defensivos por hectare. “O número precisa ser entendido sob uma ótica maior”, afirma. “A comparação pela área colhida é mais justa porque computa as duas ou três safras anuais que o Brasil realiza na mesma área, algo impossível em países de clima temperado, onde só se faz uma safra por ano”, completa. 

Esse argumento, porém, é controverso, visto que a FAO já computa os dados em volume por área plantada. Em seu site, a CropLife Brasil argumenta que, além da mesma área ser utilizada para mais de uma safra no ano, o que a FAO também contabiliza, a silvicultura (plantio de árvores para produção de papel, celulose e madeira) também entra na conta.

 

Sendo assim, de acordo com a entidade, o volume de defensivos químicos utilizados pelo Brasil em kg/ha seria de 7,40, quase metade dos 12,63 da FAO. 

Robson Barizon, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, reconhece o argumento, mas alerta para o que está por trás dos dados:

Independente da forma como você trata os dados — por área colhida, por área plantada, descontando uso não agrícola ou não —, nós estamos em uma tendência muito significativa de alta. E o mundo está tendendo a estabilizar. Isso é muito preocupante.”

Segundo Dario, há um equívoco na utilização dos defensivos químicos por parte dos consumidores finais, algo que poderia ser sanado com orientações direcionadas a todos os públicos — do agricultor pequeno aos grandes produtores.

A percepção de quem está no campo confirma a tendência. Ricardo Rodrigues, produtor de cana-de-açúcar de Lençóis Paulistas (SP), tem 30 anos de experiência com defensivos agrícolas. "Quando eu comecei, os agrotóxicos era bem pouco. A gente usava um pré-emergente, uma quantidade muito pequena, porque tinha uma baixa incidência e o mato era suscetível ao veneno, ele morria fácil", conta. 

Cada ano que passa, a gente tá usando mais."

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causas do aumento 

O clima tropical
 

O principal motivo apontado por pesquisadores e agrônomos é o clima. Ao contrário de zonas temperadas, como Europa, norte da Ásia e boa parte dos EUA, as regiões produtoras brasileiras não têm um inverno consistente capaz de quebrar os ciclos biológicos das pragas e doenças pelo frio prolongado. A sucessão de culturas em janelas curtas mantém alimento e abrigo disponíveis e prolonga a temporada de infestações.
 

“Aqui você não tem esse inverno que ajude a controlar”, explica Barizon. “No dia em que você está colhendo a soja, já tem uma máquina plantando milho atrás. Não se quebra esse ciclo.”
 

A umidade e o calor são igualmente determinantes: quando há temperatura alta e umidade também alta, são os fungos e as doenças que se desenvolvem. Em condições de temperatura elevada com umidade baixa, há proliferação de insetos. “Nós somos o paraíso das pragas”, resume Amália Borsari, gerente de assuntos científicos e regulatórios da CropLife Brasil.
 

Além disso, a cada ano surgem pragas novas. O psilídeo dos citros, vetor da bactéria que causa o greening (HLB), chegou ao Brasil há cerca de uma década e já levou São Paulo a erradicar quase um milhão de pés de laranja e ter uma queda de quase 25% na produção, consolidando a segunda pior safra nos últimos 37 anos. A cigarrinha do milho é outro caso recente de praga de difícil controle: “Eu testei todas as moléculas do mercado. Nenhuma passou de 50% de eficiência. Você teria que tratar a cada cinco dias para ter resultado”, relata Dario.

ciclo da resistência

À medida que as pragas desenvem resistência, o produtor é forçado a aumentar doses ou combinar mais moléculas para obter o mesmo efeito, o que, por sua vez, acelera ainda mais a seleção de bio tipos tolerantes.

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A ferrugem da soja, surgida no início dos anos 2000, é talvez o exemplo mais impactante. “Ela desconstruiu todo o manejo integrado de pragas que existia na soja”, diz Barizon.

Os produtores do Cerrado, que têm grandes áreas, aproveitam a entrada para aplicar fungicida para a ferrugem e já acrescentam outros produtos preventivamente. Isso desequilibra o ecossistema e faz com que você precise aplicar cada vez mais.”

O fator econômico e tecnológico
 

A expansão da segunda safra, e a adoção da terceira em algumas propriedades, levou produtores a acreditar que precisam aplicar mais e de forma constante para garantir produtividade e lucro. Ao mesmo tempo, a chegada de genéricos ao mercado barateou as doses e reduziu a barreira de entrada.
 

“A liberação de defensivos genéricos trouxe efeito positivo nos preços, como aconteceu com os fármacos”, diz Cordioli. “Por si só isso não seria problema se a decisão fosse por nível de dano. O problema é quando vira aplicação calendarizada, completa Dario.” Esse tipo de aplicação se resume à aplicação de defensivos de maneira periódica, sem análises e confirmações da existências de pragas e doenças no local.

Um fator adicional, ainda pouco debatido, é a adoção incompleta do plantio direto. Essa técnica, amplamente disseminada nas lavouras brasileiras, pressupõe três práticas combinadas: não revolver o solo, manter cobertura permanente sobre ele e diversificar culturas. O problema, como mostrou um estudo do Instituto Escolhas publicado em 2025, é que a maioria dos produtores adota apenas o primeiro pilar e abandona os demais.

O resultado é paradoxal: sem rotação de culturas e cobertura de solo, o plantio direto aumenta a pressão de plantas daninhas, tornando os agricultores ainda mais dependentes de herbicidas sintéticos. Ainda segundo o estudo, entre 1993 e 2023, a área plantada com soja cresceu 317%, enquanto o uso estimado de defensivos químicos nessa cultura cresceu 2.019%. Em 1993, para cada quilo de herbicida aplicado, colhiam-se 23 sacas de soja; hoje a colheita média caiu para apenas 7 sacas por quilo de herbicida, um sinal claro de ineficiência crescente no uso do insumo.
 

A adoção de máquinas com maior capacidade operacional também cria incentivos: quando a estrutura está disponível, a tentação de padronizar a agenda é grande. No campo, a percepção de risco em anos de clima mais quente e úmido aciona pulverizações preventivas sem confirmação por amostragem. Quando o calendário se impõe sobre o monitoramento, a estatística trabalha contra a eficiência, aumentando a chance de tratar fora da janela ideal e de alimentar a resistência das pragas.

A resistência biológica
 

Repetir o mesmo mecanismo de ação sobre populações grandes resulta na seleção de biotipos tolerantes. Em plantas daninhas, esse processo explica a perda de eficiência do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo, e a necessidade de misturas de outras moléculas para que ele volte a funcionar.

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“O que aumenta a resistência da praga é subir a dose de um produto na mesma área na tentativa de compensar uma aplicação mal feita”, diz Dario. “Você não mata o inseto ou a doença. Só seleciona os mais resistentes.” Barizon confirma: “A principal causa que diagnosticamos foi a resistência adquirida. Outras moléculas tiveram que ser aplicadas junto para que a original voltasse a funcionar.”

O fenômeno é sentido diretamente pelos produtores. Rodrigues relata que o glifosato, antes eficaz em baixas concentrações, foi perdendo resultado à medida que as dosagens aumentavam. "O pessoal começou a usar muito, começou a aumentar muito a dosagem. A gente sempre trabalhou com 1 ou 2% de glifosato — mesmo assim, não tá tendo resultado", diz. 

Plantas que antes cediam facilmente ao herbicida, como o capim-amargoso e o capim-pé-de-galinha, hoje exigem outros produtos para ser controladas. "O glifosato já é ineficiente num monte de planta. Tá ficando cada vez mais difícil. Já tem colega que usa 4%, 6% e até mais na concentração e mesmo assim nada". Nas instruções do produto, a maior dosagem recomendada é de 1,75%, ou 1.750 gramas por 100 litros de água.

O colapso da extensão rural

O último motivo é estrutural. O encolhimento — e quase extinção — da extensão rural pública desde os anos 1990 deixou muitos produtores, especialmente os de menor escala, dependentes do aconselhamento técnico que acompanha a venda de insumos. “O vendedor quer vender mais fertilizante, mais pesticida”, resume Barizon. “Isso dificulta o monitoramento e empurra para o tratamento preventivo, que utiliza mais defensivos, com maior frequência e em uma área maior.”

O pequeno produtor, paradoxalmente, tende a ser o maior poluidor proporcional. Como explica Dario:

O grande produtor usa 1 litro por hectare de um determinado produto e planta 10 mil hectares. Se ele colocar 10% a mais, são 1.000 litros extras. O pequeno produtor planta 1.000 metros de alface, põe o dobro da dose, o que, para ele, em termos de custo, é pouco. E aí contamina e polui.”

O sucateamento das estruturas públicas foi progressivo e profundo. Antes da extinção da Embrater, cada município contava com uma Casa da Lavoura, um espaço onde um agrônomo servidor público atendia o produtor gratuitamente, sem nenhum interesse na venda de insumos. Esse serviço foi sendo esvaziado ao longo dos anos, e as empresas estaduais de assistência técnica viram seus repasses federais definhar até a irrelevância em muitos estados. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Agrário, menos de 20% dos mais de 5 milhões de estabelecimentos rurais brasileiros recebem hoje alguma forma de orientação técnica, situação ainda mais crítica na agricultura familiar.
 

Em 2025, os recursos destinados à extensão rural caíram 7,4% em termos reais, totalizando R$ 5,53 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios. A União respondeu por apenas 0,6% do orçamento agrícola federal destinado à área, com uma participação no orçamento que, nos últimos dez anos, nunca ultrapassou 1,8%. 

Em 2025, os recursos destinados à extensão rural caíram 7,4% em termos reais, totalizando R$ 5,53 bilhões, segundo levantamento da Confederação Nacional de Municípios. A União respondeu por apenas 0,6% do orçamento agrícola federal destinado à área, com uma participação no orçamento que, nos últimos dez anos, nunca ultrapassou 1,8%. 

O problema vai além da ausência de orientação: trata-se de um conflito de interesses estrutural.

Com o desmonte do serviço público de extensão, as revendas de insumos passaram a ocupar o espaço antes preenchido pelo agrônomo imparcial.

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"Por mais que ele seja de boa-fé, toda hora tem que pensar no que dá maior porcentagem. Muitas vezes o que dá maior comissão não é o melhor produto", diz Dario.

 

Cooperativas que deveriam ser referência técnica para seus cooperados também sucumbiram à lógica comercial: "A cooperativa vende o que dá mais lucro para ela. Não é mais cooperativa."

Consequências

Meio ambiente

No meio ambiente, as consequências começam pelo solo e pela água. Aplicações fora do momento ideal, repetição desnecessária e uso de equipamentos inadequados ampliam a deriva e o carreamento dos produtos. A deriva é o desvio das partículas de defensivos agrícolas durante a pulverização, que podem ser levadas pelo vento ou condições climáticas fazendo com que não atinjam somente o alvo desejado. Já o carreamento acontece quando essas partículas são transportadas pela água e pelo solo. Esses fenômenos são recorrentes, segundo o professor da Esalq, Geraldo Dario, e contribuem para a contaminação da flora, fauna e ecossistema ao redor das lavouras.

 

Barizon destaca os riscos de dispersão:
 

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Há milhares de trabalhos mostrando que os pesticidas se dispersam no ambiente. Eles conseguem se infiltrar na água subterrânea, chegar a riachos, são transportados pela atmosfera a grandes distâncias. Como são substâncias bioativas, o inseticida usado para controle de pragas não tem especificidade de só atuar naquela praga que você quer."

Em um estudo de 2017, realizado em Mato Grosso do Sul, a Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB) constatou que 42% dos animais analisados continham em seu organismo substâncias provenientes de inseticidas, pesticidas ou fertilizantes. A pesquisa foi estendida a moradores de regiões agrícolas do estado, próximos a grandes plantações: entre os humanos, foi constatada contaminação em 32% dos analisados, considerando apenas uma substância, o glifosato. 

A assimetria regulatória entre o Brasil e outros países amplifica esse risco:

o limite de resíduo de glifosato tolerado na água potável brasileira é 5.000 vezes maior do que o estabelecido pela União Europeia.

No caso do tebuconazol, inseticida proibido na Europa, a diferença chega a 1.800 vezes.

Para Dario,  o impacto mais grave para a fauna é a mortandade de abelhas pela deriva nas aplicações:

"Sem abelha não tem planta, não tem flor, não tem fruta, não tem nada, porque elas são responsáveis pela polinização." As consequências ultrapassam as fronteiras brasileiras: em janeiro de 2026, a França anunciou a suspensão de importações de frutas da América do Sul que contenham resíduos de quatro ativos proibidos na União Europeia: mancozebe, glufosinato, tiofanato-metílico e carbendazim, sendo este último já proibido no próprio Brasil. O anúncio, feito em meio às negociações do acordo Mercosul-UE, evidencia que o uso de defensivos não é apenas uma questão ambiental e de saúde pública, mas um risco crescente à competitividade das exportações brasileiras. 

Curiosamente, o movimento em alguns estados brasileiros vai na direção oposta: em março de 2025, a Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou uma lei que permite a aplicação de defensivos químicos próximo a rios e nascentes, reduzindo as faixas de proteção que antes impediam o uso nessas áreas.

No plano agronômico

No plano agronômico, a consequência mais séria é o encurtamento da vida útil das ferramentas de controle. Cada mecanismo de ação perdido por mau uso antecipa o próximo salto de custo em pesquisa e desenvolvimento, além de criar a necessidade de produtos mais fortes e concentrados.
 

O resultado prático é uma espiral de dependência tecnológica: mais resistência exige novas moléculas, novas moléculas exigem mais investimento em pesquisa e desenvolvimento, e o custo de produção sobe. Quando um mecanismo de ação é perdido por uso inadequado, o intervalo até o surgimento de um substituto pode levar mais de uma década, tempo em que o produtor fica exposto a perdas ou obrigado a recorrer a combinações menos eficientes e mais agressivas ao ambiente.
 

Há ainda um impacto econômico direto sobre o produtor que muitas vezes passa despercebido: o aumento do custo por hectare. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), os gastos com pesticidas nas lavouras de soja já respondem por entre 20% e 30% do custo de produção, dependendo da região e das condições climáticas. À medida que moléculas perdem eficiência, as doses recomendadas sobem ou o número de aplicações se multiplica, encarecendo o ciclo produtivo. Para o pequeno produtor, sem escala para diluir esses custos, a pressão é ainda maior, e a tentação de buscar produtos mais baratos e menos eficientes cresce junto com ela, agravando o problema que se tentava resolver.

alternativas

Defensivos biológicos

O Brasil ocupa hoje uma posição singular no cenário mundial: ao mesmo tempo em que registra uma das maiores taxas de crescimento no uso de defensivos químicos, é o país onde mais se usam defensivos biológicos para a agricultura. Segundo a Embrapa, o mercado de bioinsumos cresce 15% ao ano no país e deve superar os químicos até 2050. Em dez anos, o número de empresas com produtos biológicos registrados saltou de 8, em 2014, para 53 em 2024, um crescimento de 662%. Na safra 2024/2025, a área tratada com bioinsumos cresceu 15%, com uma taxa média de adoção por área 26% maior, segundo a CropLife Brasil.

Os defensivos biológicos, conhecidos como inimigos naturais, utilizam organismos vivos (fungos, bactérias, vírus e insetos) para o controle de pragas e doenças, reduzindo ou complementando o uso de moléculas químicas. Um dos exemplos mais consolidados é a Cotesia flavipes, uma vespa parasitoide usada no controle da broca-da-cana (Diatraea saccharalis).

 

A aplicação pode ser feita por drones que sobrevoam a plantação e liberam as vespas em recipientes biodegradáveis, ou de forma terrestre. O inseto deposita seus ovos dentro da larva da broca, impedindo seu ciclo de vida e reduzindo em 50% a 70% a necessidade de inseticidas químicos na cultura da cana.

Os biológicos estão longe de ser novidade, existem desde o século passado, mas foram as melhorias tecnológicas nas formulações que permitiram sua adoção em larga escala no campo brasileiro, onde a temperatura e a umidade antes inviabilizavam os microrganismos. “Nós somos referência em produtos biológicos. Nossos produtores têm a mente mais aberta para o uso de biológicos do que em vários outros países”, afirma Barizon.

Rodrigues é exemplo dessa abertura. Diante da resistência crescente das pragas e da queda na eficiência dos químicos, ele começou a incorporar biológicos à rotina da propriedade. "A gente tá mesclando um pouco a parte biológica para ver se dá uma controlada, porque as pragas estão se tornando resistentes com o passar dos anos", diz. A mudança, porém, não veio por convicção ambiental, mas por necessidade técnica — o químico sozinho já não resolvia.

A chave, no entanto, está na complementaridade. “O produto biológico não pode ser visto como uma solução única, porque não existem biológicos para todas as pragas e doenças e em determinados momentos ele não vai funcionar, por exemplo, onde há uma pressão de doença ou praga muito grande”, explica Borsari. Ela usa uma analogia da medicina: assim como os probióticos fortalecem a microbiota e previnem doenças, mas não substituem antibióticos em infecções graves, os biológicos e os químicos devem atuar juntos conforme a necessidade.

Existe, porém, uma questão controversa em meio a essa indústria: a produção de biológicos na própria fazenda (o chamado “on-farm”), sem controle de qualidade industrial. “Hoje 90% do biológico que chega ao campo é água de batata”, critica Dario, referindo-se a produtos de baixa concentração e qualidade duvidosa. Quando o produto caseiro falha, o produtor conclui que “biológico não funciona”, um prejuízo à transição que o setor tenta combater. “Quando a biofábrica da fazenda produz um inóculo de baixa qualidade, o produtor tem um resultado agronômico ruim e a impressão de que o agente biológico não serve”, alerta Barizon. “Todo um trabalho de conscientização se perde.”

Manejo Integrado de Pragas

Antes de pensar em substituir produtos, é possível reduzir significativamente o consumo dos atuais com práticas hoje acessíveis. O Manejo Integrado de Pragas, conhecido pela sigla MIP, é uma das estratégias mais antigas e bem documentadas para reduzir o uso de defensivos sem comprometer a produtividade. O conceito, definido pela própria FAO, consiste em utilizar todas as técnicas de controle disponíveis de forma combinada, mantendo a população de pragas abaixo do chamado Nível de Dano Econômico, o ponto a partir do qual a praga causa prejuízo financeiro ao produtor. Abaixo desse limiar, não há justificativa técnica nem econômica para a aplicação de defensivos. 

O MIP funciona como uma sequência de decisões baseadas em monitoramento. "Você não aplica porque está no calendário. Você aplica porque a praga chegou ao nível que justifica", resume Barizon. A Embrapa estima que, em programas de MIP bem implementados na soja, o número de aplicações de inseticidas pode ser reduzido em até 50% sem perda de produtividade, como demonstrou o Programa MIP-Soja Paraná, liderado pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná e pela Embrapa Soja.
 

Para pequenos produtores, a solução pode ser mais simples e barata: retomar o monitoramento de pragas por amostragem, uma prática praticamente abandonada. “Você bate o pano, conta os percevejos, conta as lagartas e só aplica quando atinge o nível de dano econômico. Praticamente foi abandonado. Para pequenos produtores, é de baixo custo”, diz Barizon.

Um exemplo concreto foi desenvolvido pela própria Embrapa Meio Ambiente, em Atibaia (SP). Em um programa de produção integrada de morango, cultura historicamente associada à alta contaminação por pesticidas, a instituição conseguiu redução drástica no uso de defensivos, mantendo a qualidade dos frutos, a produtividade e, ainda, aumentando a margem de lucro dos produtores. 

O resultado foi alcançado por meio de três práticas combinadas: monitoramento sistemático das lavouras para identificar o momento exato em que a aplicação se torna necessária, uso de defensivos químicos somente quando o nível de infestação justificava a intervenção, e substituição parcial por produtos biológicos nas fases em que a pressão de pragas permitia. “É possível. Mas existe a necessidade de um esforço organizado, integrado, que tem que partir do poder público”, diz o pesquisador Robson Barizon.

O mesmo princípio vale para o plantio direto: adotado com todas as práticas complementares, rotação de culturas e cobertura permanente do solo, o sistema pode elevar a produtividade da soja em 50% a 60% em comparação ao plantio convencional, segundo estudos da Embrapa Soja, enquanto reduz significativamente a dependência de herbicidas. O desafio é que apenas uma fração dos produtores adota o sistema de forma completa.

Os pilares do MIP vão além do controle químico e biológico. O sistema integra também o controle cultural, como a rotação de culturas para quebrar o ciclo das pragas e a escolha do momento certo de plantio, o controle varietal, com o uso de cultivares geneticamente resistentes, e o controle comportamental, que emprega armadilhas com feromônios para monitorar e reduzir populações de insetos. A rotação entre diferentes mecanismos de ação dos defensivos, quando o uso químico for necessário, é outro pilar essencial: aplicar o mesmo produto safra após safra seleciona indivíduos resistentes e acelera justamente o problema que o produtor tenta evitar.

O maior obstáculo à adoção do MIP no Brasil é o mesmo que atravessa toda a discussão sobre o uso de agroquímicos: a falta de assistência técnica. Implementar o sistema exige conhecimento da biologia das pragas locais, capacidade de monitoramento regular e acesso à orientação especializada, recursos que, como mostraram os Censos Agropecuários, chegam a menos de 20% dos estabelecimentos rurais brasileiros. Sem um agrônomo que acompanhe a lavoura e ajude a interpretar os dados do campo, o produtor recorre ao calendário fixo de pulverizações não por comodismo, mas por falta de alternativa.

Agricultura de precisão

A agricultura de precisão e digital parte de um princípio que contraria a lógica dominante no campo brasileiro: em vez de aplicar defensivos de forma uniforme sobre toda a área, trata cada ponto da lavoura de acordo com o que ele de fato precisa. Para isso, usa dados de solo, clima, produtividade e infestação coletados por sensores, drones, satélites e plataformas digitais, combinados para apoiar a tomada de decisão do produtor. A Sociedade Internacional de Agricultura de Precisão define o conceito como uma estratégia que "reúne, processa e analisa dados temporais, individuais e espaciais para melhorar a eficiência no uso de recursos, produtividade, qualidade, rentabilidade e sustentabilidade da produção agropecuária."

Na prática, significa aplicar o insumo certo, na dose certa, no lugar certo e na hora certa, o oposto da pulverização calendarizada.

O impacto no uso de defensivos pode ser expressivo. Uma das ferramentas mais concretas são as fotocélulas em barras pulverizadoras: sensores que identificam a presença de plantas daninhas e ativam os bicos apenas onde há esse tipo de vegetação, sem aplicar produto no solo limpo ou na cultura plantada na área. "Existem relatos de redução de até 80% no herbicida usado numa área. Só que exige investimento", pondera Barizon. Segundo a Zait, uma das empresas que produz essa tecnologia, a redução no uso dos insumos pode chegar a 95%. 

Outras tecnologias permitem mapear a variação de infestação dentro de um mesmo talhão e ajustar automaticamente a dose aplicada em cada ponto, eliminando tanto o excesso quanto a falta de produto. "A agricultura de precisão permite produzir mais com menos: menos insumos, menos impacto ambiental e mais rentabilidade", resume Marcio Albuquerque, presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP).

Em 2025, a adoção dessas ferramentas cresceu de forma consistente no Brasil, mesmo em um cenário de margens mais apertadas, segundo a AsBraAP. O país está entre os mais avançados do mundo em agricultura de precisão, especialmente em grãos e cana-de-açúcar. O problema é que esse avanço ainda é concentrado. Para Albuquerque, os principais obstáculos à adoção mais ampla são o custo inicial elevado, a falta de conectividade no campo e a escassez de capacitação técnica, os mesmos gargalos que travam a extensão rural.

Sem assistência especializada para instalar, calibrar e interpretar os dados das ferramentas, a tecnologia fica restrita às grandes operações. "A agricultura de precisão e digital não é tendência, é realidade irreversível. O desafio agora é ampliar o acesso", diz Albuquerque.

o papel do estado

Em junho de 2025, o presidente Lula sancionou o Decreto nº 12.538, que instituiu o PRONARA (Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos), iniciativa que busca criar metas e ações coordenadas para diminuir o consumo de defensivos químicos sem proibir produtos. Em março de 2026, o comitê gestor do programa publicou uma resolução com 30 ações prioritárias para 2026 e 2027. Entre elas estão: a elaboração de uma lista nacional de produtos "altamente perigosos ao meio ambiente e extremamente tóxicos"; a revisão da regulamentação da pulverização aérea por drones; a criação de um canal unificado para denúncias de contaminações; e a instituição de vigilância em saúde para populações expostas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). 

 

O programa não prevê proibições sumárias. A competência de registro ou cancelamento permanece com Mapa, Anvisa e Ibama, mas representa, para especialistas, o primeiro reconhecimento oficial de que o uso precisa ser reduzido. "Pela primeira vez existe um motivo oficial que orienta a redução desses produtos", declarou Paulo Petersen, membro do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia. A medida também responde a compromissos internacionais: pelo Acordo de Kunming-Montreal, firmado na Convenção sobre Diversidade Biológica, em 2022,

o Brasil se comprometeu a reduzir em 50% os riscos ambientais associados ao uso de pesticidas até 2030.

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Em paralelo, o Ministério do Desenvolvimento Agrário prepara uma proposta estrutural para enfrentar o colapso da extensão rural: a criação do Sistema Unificado de Assistência Técnica e Extensão Rural (Suater), inspirado no modelo do SUS. A ideia é concentrar a gestão da política e os recursos para financiamento dos projetos em nível nacional, a partir de um novo fundo permanente, o Fundater, com potencial de chegar a R$ 10 bilhões para repasse a órgãos federais, estados e municípios, com critérios e metas de desempenho. O objetivo no médio prazo é universalizar o acesso à assistência técnica pública, revertendo o quadro em que mais de 80% dos estabelecimentos rurais operam sem orientação técnica. "O pilar que falta é o da assistência técnica e extensão rural", declarou o ministro Paulo Teixeira ao anunciar a proposta.

“Temos que ter uma iniciativa organizada. Já existem algumas, mas precisamos trabalhar de forma muito mais integrada”, diz Barizon. “Nós precisamos primeiro entender em profundidade essas causas para criar planos de atuação, porque temos compromissos internacionais.”

Para Dario, a raiz do problema e, portanto, a raiz da solução, está na orientação ao produtor: “Tem produtos bons, tem agrônomos competentes, tem pesquisa. O que não chegou ao produtor foi a informação.” Sem retomar alguma forma de extensão rural que chegue ao campo de forma imparcial, seja pública, cooperativista ou híbrida, nem os melhores biológicos nem as melhores regulamentações serão suficientes para reverter a curva.

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